Eternamente Apaixonada


Nos últimos tempos a chuva não tem dado tréguas. Hoje o sol voltou a brilhar. As temperaturas convidavam a dar um passeio. Este fim de semana precisava de paz e sossego, queria fugir da cidade sem fugir dela. Descobri um daqueles que se tornou um dos meus recantos favoritos (até à data) e só a 5 minutos de casa: Jardins da Gulbenkian.  Estou apaixonada. Rendo-me! Estou eterna e irremediavelmente apaixonada por Lisboa e por todos os seus recantos.

Não sei se são os recantos. Os lugares recônditos. Ou talvez as colinas verdejantes, ótimas para estender uma manta e ficar a ler um livro. Ir até ao lago. Apreciar as ínfimas brincadeiras dos patinhos. A calma, o sossego, a paz. A possibilidade de me sentar sozinha sem me sentir só. Apreciar o que por vezes não sabemos apreciar. Aquilo a que eu chamo "momento de pausa".

Ofereço-vos um pouco deste pequeno paraíso. Espero que gostem do "mini álbum" fotográfico que fiz, editei e escolhi especialmente para vocês.


E os namorados por ali perdidos. Aposto que grandes amores nasceram nos bancos daqueles jardins. Já estou a imaginar...


Era um dia como tantos outros. Ela precisava de trabalhar mas não lhe apetecia ficar em casa. O dia estava lindo lá fora. Pegou nos livros e no computador e foi até à Gulbenkian. Depois de dar umas voltas pelo jardim lá decidiu sentar-se num banco mais ou menos escondido da confusão para poder trabalhar sossegada. 
Ele tinha decido aproveitar a tarde de sol para tirar umas fotos para o portefólio. Por azar (ou sorte) enganou-se no autocarro. Tinha apanhado o 726. Só se apercebeu de tal quando já estava a chegar à Gulbenkian. Saiu nessa paragem. Decidiu aventurar-se. Ficou encantado com tamanha beleza. Parava em cada canto para tirar uma fotografia e mais uma e outra. A inspiração aparecia de todos os lados. Decidiu sentar-se por breves momentos para ver as fotos que já tinha e beber um golo de água. Foi então que a viu. Sentada num banco a dois metros dele. Não consegui parar de admirá-la. Serena. Pacífica. Angelical. Parecia que nada à sua volta a afetava. Estava ali sozinha mas parecia não se sentir só. Ele sentiu uma enorme necessidade de ir ter com ela. Dizer-lhe "olá". O corpo parecia não fazer o que a cabeça lhe mandava. Ficou paralisado. As horas foram passando até que começaram a brilhar os últimos raios de sol. Ela devia estar quase a ir embora. Ele tinha de agir. Tinha acabado de a ver pela primeira vez e já amava desde sempre. 
Ela estava mergulhada nos livros quando decidiu desviar os olhos por breves momentos das páginas. Estava num sítio tão bonito e ainda não tinha tirado uns minutos para o admirar. Foi então que o viu. A admirar a paisagem (pensava ela, quando na verdade a admirava a ela). Ele tinha qualquer coisa no olhar. Algo que despertou nela um tímido sorriso. 
Ela era daquelas pessoas que não acreditava em amor à primeira vista. Como é que é possível olhar para alguém e saber que se ama? Era impensável para ela. Mas depois as dúvidas começaram a surgir. Havia algo naquele olhar que o tornava diferente. Havia algo nele que despertava algo nela. 
O pôr do sol aproximava-se e nenhum deles avançava. Estavam demasiado encantados e petrificados. Foi então que ela começou a arrumar as coisas. Estava na hora de ir embora. O coração dele não cabia no peito. Tinha de fazer alguma coisa. Tinha trazido a polaroid instantânea. Sem que ela reparasse tirou-lhe uma fotografia. Nenhuma simples fotografia seria capaz de captar tamanha beleza. Mas ali estava ela, radiosa, linda. Pegou na caneta que trazia sempre consigo. Escreveu apenas "Encontros inesperados, reencontros desejados. Se também o desejas vem ter a este banco amanhã ao pôr do sol." Levantou-se, pegou na suas coisas e seguiu caminho na direção dela. Deixou cair a foto no banco onde ela estava sentada sem que ela reparasse. E seguiu. Ela só reparou na fotografia quando pegou na pilha de livros. Lá estava. Era ela. Era dele. 
Tudo aquilo lhe parecia saído de um filme. E se ele era maluco? E se lhe queria fazer mal? Mas o coração dela dizia-lhe que ele não era assim. 
Ele não dormiu a noite toda. Queria que o dia seguinte chegasse. Esperava que ela tivesse visto a fotografia. Esperava que ela fosse. Queria que ela fosse. Precisava que ela fosse. Ela passou o dia todo na faculdade. O corpo dela estava lá, o pensamento estava nele. Ela tinha de ir. Tinha de o ver. Tinha de "tirar as teimas". Para o bem ou para o mal.  
Eles não tinham hora combinada. Tinham o pôr do sol. Tinham a certeza da incerteza. 
Ele chegou primeiro o sol ainda estava alto. Não aguentava ficar em casa. Passaram duas horas e o sol começou a descer em direção ao horizonte. Foi então que a viu. Era linda na sua simplicidade. Ela aproximou-se e sentou-se ao lado dele no banco. Foi então que ela olhou para ele e ele viu os olhos dela. Não eram azuis, não eram verdes. Eram uma mistura subtil. O olhar mais cativante que ele alguma vez viu.
Ela olhou-o tímida.
Foi então que ele disse: "Amo-te".
Ela respondeu "Não te conheço de lado nenhum mas sou tua para sempre"
Talvez tenha sido a forma como ele olhava para ela. Como ela retribuía o olhar. Talvez tenha sido o sorriso dele. Talvez tenha sido a simples sinceridade de um "amo-te" verdadeiro.  
Coisas destas não acontecem todos os dias. Coisas destas parecem impossíveis. Coisas destas dão sentido à vida. Coisas destas fazem-nos acreditar no amor. 
O amor é tão simples quando ninguém o complica. A beleza das coisas está na sua simplicidade. Para ser sentido não tem de ser difícil. Para ser verdadeiro não tem de ser demorado. Para ser grande não tem de ser dar a volta ao mundo. Basta uma tarde, uma coincidência, uma troca de olhares e um banco de jardim.